De tanto ouvir nada
tudo fica muito.
Fruto oferecido
ao meu paladar
se me entreabrindo
polpa de apetite.
Vem se mastigando
num castigo surdo
sussurro macio
de cioso som.
O fruto palavra
de doce mascavo
repuxa viscoso
no tacho da boca
mel caramelado.
Nas paredes brancas
escarpas afiadas
os dentes sedentos
língua lambe-lambe
lambuzando a cara.
De comer no entanto
tudo fica pouco
já que somos muitos
de uma mesma boca
ciciando o que fica
na sobra dos dentes
os fiapos sitiados
na ponta da língua
prontos para o gesto
de broca palito.
Gagueja a sintaxe
britadeira grita
em solo de rocha.
Há que repetir
poundianamente
o tripé poema
os gregos de Tróia
cavalo de phanus
na sela do logus
dança a melopéia.
Aprendiz silente
é quando descasco
a casca do fruto
e sorvo seus gomos
o musgo da polpa
no vão do barulho:
Babel ó Babel!
Dá-me a confusão
as língua de fogo
queimando meus sonhos.
De tanto ouvir muito
tudo fica surdo
e se instala o mudo
silêncio do mundo.
A canção sozinha
não da solidão
mas a solitária
sempre perseguida
o fruto calado
que abrirá os gomos.
Este fruto muda
de cor e de rumo
camaleão ágil
no repto do rapto
valquírias aladas
pousam na paisagem
de ontem e de sempre
e as muitas sereias
no rastro de Ulisses
reinventam os mares.
Todas já passaram
além Bojador
todas já forjaram
um céu meridiano
no aço do seu fio
o corte cortante
o corte cortador.
No sumo da palavra
a gota se enxuga
e lava a palavra.
Nada há de novo
no rio corrente
onde banho a fruta.
Esse recorrente
ato da procura
é que me alivia
do novo especioso
ato da invenção.
No incêndio afogado
sei-me palimpsesto.
Musas dos irmãos
socorrei-me musas
e deitai comigo.
Nascerão do incesto
clones de mil faces
anjos de asas tortas
um decamerão
frouxo e esparramado
de um miglior cantor
para um minor fabbro.
Aníbal Beça
Escrita subscrita
Eu me inscrevo escritura
cúmplice da fatura
e nessa escrita inscrito
escrevo o grito aflito.
Um solo só de fogo
nas águas do seu jogo
ar no sopro do vento
chão do quarto elemento.
Também escrevo o urro
não somente o sussurro
o dito da alegria
dita a caligrafia.
Escavo e escrevo o cravo
na rota dos pés cavos
presa da ferradura
em covas de funduras.
Escrever-me no escrito
sem o crivo mau dito
e bem dizer do mal
dito um bendito aval.
Sou dois nessa serpente
e mordo a cauda presente
penso no ser do sonho
corpo com que me assanho.
Essa placenta envolta
dá voltas muito soltas
enforcado de mim
chego no imo do fim.
E sou e nada sei
rei perdido na grei
escravo do conflito
eu lavro o meu escrito.
Palavra que me leva
leve ao vale das trevas
no passo da claridade
piso a luz da herdade.
E o verbo se inicia
grunhir de parceria
sou fera da parelha
no som que me assemelha.
Domado domador
mando e desmando a dor
sou fim desse começo
reinvento e recomeço.
De novo começar
precisa o sal do mar
jorro de muita água
choro de muita lágrima.
Maravilha se assina
alegria da campina
firmo a sina feliz
traço de claro giz.
No silêncio me assumo
surdo desse barulho
e só me sinto muito
pouco de tanto intuito.
Escrevo o crivo escrito
na escritura do rito
subscrito e escrevo
no risco mais primevo.
No tempo que inda tenho
pairo pensando e venho:
banho na mesma água
mágoas que o tempo lava.
Não levo a dor da culpa
nem pecado me avulta
e livro da centelha
o outro da parelha.
Só não livro da dor
quem não se deu no amor
não soube na medida
desmedir pela vida.
cúmplice da fatura
e nessa escrita inscrito
escrevo o grito aflito.
Um solo só de fogo
nas águas do seu jogo
ar no sopro do vento
chão do quarto elemento.
Também escrevo o urro
não somente o sussurro
o dito da alegria
dita a caligrafia.
Escavo e escrevo o cravo
na rota dos pés cavos
presa da ferradura
em covas de funduras.
Escrever-me no escrito
sem o crivo mau dito
e bem dizer do mal
dito um bendito aval.
Sou dois nessa serpente
e mordo a cauda presente
penso no ser do sonho
corpo com que me assanho.
Essa placenta envolta
dá voltas muito soltas
enforcado de mim
chego no imo do fim.
E sou e nada sei
rei perdido na grei
escravo do conflito
eu lavro o meu escrito.
Palavra que me leva
leve ao vale das trevas
no passo da claridade
piso a luz da herdade.
E o verbo se inicia
grunhir de parceria
sou fera da parelha
no som que me assemelha.
Domado domador
mando e desmando a dor
sou fim desse começo
reinvento e recomeço.
De novo começar
precisa o sal do mar
jorro de muita água
choro de muita lágrima.
Maravilha se assina
alegria da campina
firmo a sina feliz
traço de claro giz.
No silêncio me assumo
surdo desse barulho
e só me sinto muito
pouco de tanto intuito.
Escrevo o crivo escrito
na escritura do rito
subscrito e escrevo
no risco mais primevo.
No tempo que inda tenho
pairo pensando e venho:
banho na mesma água
mágoas que o tempo lava.
Não levo a dor da culpa
nem pecado me avulta
e livro da centelha
o outro da parelha.
Só não livro da dor
quem não se deu no amor
não soube na medida
desmedir pela vida.
Soneto para Eugénia
O tempo que te alonga todo dia
é duração que colhes na paisagem,
tão distante e tão perto em ventania,
sitiando limites na viagem.
Desse mar que se afasta em maresia
o vago em teu olhar se faz aragem
nas vagas que se vão em vaga via
vigia de teus pés no vão das margens.
E o fio da teia vai fugindo fosco,
irreparável névoa pressentida
nos livros que não leste, nesses poucos
momentos que sobravam da medida.
Angústia de ponteiros, sol deposto,
no tédio das desoras foge a vida.
Vida que bem mereces por inteiro,
e é pouca a que te dou de companheiro.
é duração que colhes na paisagem,
tão distante e tão perto em ventania,
sitiando limites na viagem.
Desse mar que se afasta em maresia
o vago em teu olhar se faz aragem
nas vagas que se vão em vaga via
vigia de teus pés no vão das margens.
E o fio da teia vai fugindo fosco,
irreparável névoa pressentida
nos livros que não leste, nesses poucos
momentos que sobravam da medida.
Angústia de ponteiros, sol deposto,
no tédio das desoras foge a vida.
Vida que bem mereces por inteiro,
e é pouca a que te dou de companheiro.
Chuva de fogo
Meus olhos vão seguindo incendiados
a chama da leveza nesta dança,
que mostra velho sonho acalentado
de ver a bailarina que me alcança
os sentidos em febre, inebriados,
cativos do delírio e dessa trança.
É sonho, eu sei. E chega enevoado
na mantilha macia da lembrança:
o palco antigo, as luzes da ribalta,
renascença da graça do seu corpo,
balé de sedução, mar que me falta
para o mergulho calmo de um amante,
que se sabe maduro de esperar
essa viva paixão e seu levante.
a chama da leveza nesta dança,
que mostra velho sonho acalentado
de ver a bailarina que me alcança
os sentidos em febre, inebriados,
cativos do delírio e dessa trança.
É sonho, eu sei. E chega enevoado
na mantilha macia da lembrança:
o palco antigo, as luzes da ribalta,
renascença da graça do seu corpo,
balé de sedução, mar que me falta
para o mergulho calmo de um amante,
que se sabe maduro de esperar
essa viva paixão e seu levante.
Curta Pavana
O dorso que se curva elegante
desenha na memória a leve dança
da bailarina grácil, celebrante
de rito sedutor, que me balança
toda vez que me vejo tão distante,
torcendo meus desejos na lembrança
dos momentos vividos, no constante
aprendizado vasto da mudança.
Posto que a vida corre em curtas curvas,
transitória paisagem, vário atalho
que vai modificando linhas turvas.
Mutante claridade me agasalha:
no casulo do gozo de sussurros
sei-me bicho saído dessa malha.
desenha na memória a leve dança
da bailarina grácil, celebrante
de rito sedutor, que me balança
toda vez que me vejo tão distante,
torcendo meus desejos na lembrança
dos momentos vividos, no constante
aprendizado vasto da mudança.
Posto que a vida corre em curtas curvas,
transitória paisagem, vário atalho
que vai modificando linhas turvas.
Mutante claridade me agasalha:
no casulo do gozo de sussurros
sei-me bicho saído dessa malha.
Poema de circunstância onde o poeta se auto-proclama poeta e diz do seu itinerário
Para meus filhos Aníbal,
Ricardo e Sacha
I
Quarenta anos já vivi
quarenta anos eu purguei
sem contar outros quarenta
dos poemas que tracei.
Quantos mais eu viverei?
Quarenta e poucas verdades
oitenta de muito amor
de poeta que não renega
a sina de fingidor.
Mas é bom que se pergunte:
– O que alimenta o poeta?
As mentiras e as verdades
conquistas e desamores
escaramuças boêmias
réstias de foice lunar
ou essa poeira de estrelas
que leva ao canto da boca?
II
Qual o legado ou herança
aos que chegarão depois?
Qual o filho amargará
pelas veredas de ofício
as linhas da minha dor?
Três varões de bela estirpe
por certo segredarão
os cantares mais sofridos
ouvidos da solidão
as cantigas mais que antigas
às fêmeas que tombarão.
Os três são da minha gesta
são três sementes que deixo.
Em qual... adubo serei?
Os três são da minha gesta
são três sementes que deixo.
Em qual... árvore serei?
Mas é bom clarificar:
são três sementes distintas
ligadas ao mesmo tronco
cada qual se circunscreve
ao seu rio particular.
III
Mas é bom que se esclareça:
Não deixo nada em espécie.
Deixo apenas as palavras
de fria tipologia
dos livros da minha lavra.
Além da minha guitarra
que viajou tantas canções
deixo os calos bulinosos
dos dez pássaros ariscos
acordes das minhas mãos.
Deixo também melodias
de cada paixão azul
minhas musas mais fremosas
que o vento se encarregou
de semear pelas nuvens.
E das minhas convicções
a ternura e a esperança
são a partilha mais viva
do repartir em comum.
No meu Poeminventário
a lição já foi descrita:
há que somar para o dia
o sol da democracia.
Mas no Brasil brasileiro
nunca é demais insistir
a redundância é uma prática
como um samba com pandeiro.
O que mais posso deixar?
As venturas de Bragança
os caminhos de Baeza
dos senhores da Biscaia
por que passamos por lá?
Ou estes versos do bispo
Bispo-poeta de Málaca
Dom João Ribeiro Gaio
que canta com ironia
a saga do clã dos Beça:
Geração é bem antiga
agora pouco lembrada
da honra muito amiga
mas a pobreza os obriga
de grandes tornarem-se em nada.
Mas é bom que eu agora afirme:
nunca me queixei ao bispo...
fui vassalo e menestrel
cantei em circo também
encilhador de cavalos
pelas várzeas cavalguei
astronauta de outros mundos
dos meus exílios forçados
e um dia até já fui rei
no asfalto onde só... eu sambei.
Quarenta anos já vivi
quarenta anos eu purguei
quantos mais eu viverei?
Sonata para ir à Lua
Desnudo já me dou de mim doendo
na doação das folhas da floresta
que vão caindo sem saber-se sendo
pedaços de nós na noite deserta.
A lua imponderável vai ardendo
cúmplice em nossa luz de fogo e festa
Meus braços são dois galhos te dizendo
que o forte às vezes treme em sua aresta.
Esta outra face frágil de aparência
que só aos puros é dado conhecer
no abraço da paixão e sua ardência.
Mesmo cego de mim eu pude ver
e sentir no teu beijo a clara essência
que faz do nosso amor raro prazer.
na doação das folhas da floresta
que vão caindo sem saber-se sendo
pedaços de nós na noite deserta.
A lua imponderável vai ardendo
cúmplice em nossa luz de fogo e festa
Meus braços são dois galhos te dizendo
que o forte às vezes treme em sua aresta.
Esta outra face frágil de aparência
que só aos puros é dado conhecer
no abraço da paixão e sua ardência.
Mesmo cego de mim eu pude ver
e sentir no teu beijo a clara essência
que faz do nosso amor raro prazer.
Primícias
Começo pelo começo
bem calmo nesse arremesso,
e a boa velocidade
vem nos dedos sem alarde.
A pressa que traz desastres
está fora desse catre
e a cama dos seus desejos
é dela e dos meus harpejos.
Música de descoberta
é a que vem tão aberta
que sabe a chave da cela
inventando-se janela.
Sabe soltar essa fera
presa na teia da espera:
breve sopro no pescoço
toque macio no dorso.
As mãos em concha nos seios
colinas do meu passeio
sou cuidadoso alpinista
sei do mamilo a conquista.
A língua meu artefato
se atiça com muito tato
vai do ouvido ao seu regaço
e lúbrica banha o espaço.
O tempo se perde inteiro
num relógio sem ponteiros.
Já o disse certa vez
nas curvas da sensatez.
Os sons que saltam do corpo
úmidos de tanto rogo
se abafam num bafo quente
vapor de tesão fremente.
Há mistérios nas palavras
que nem a memória grava
são do instante a liberdade
que o vulgar vem sem as grades.
É quando desço ao regato
revelando no meu trato
o retrato e seu reflexo
toda a magia do sexo.
E o beijo mais escolhido
pousa nos pêlos tecidos
crespa canção guardiã
do milagre da manhã.
E ligeira se aligeira
a serpente mais rasteira
de língua malemolente
amaciando o presente.
bem calmo nesse arremesso,
e a boa velocidade
vem nos dedos sem alarde.
A pressa que traz desastres
está fora desse catre
e a cama dos seus desejos
é dela e dos meus harpejos.
Música de descoberta
é a que vem tão aberta
que sabe a chave da cela
inventando-se janela.
Sabe soltar essa fera
presa na teia da espera:
breve sopro no pescoço
toque macio no dorso.
As mãos em concha nos seios
colinas do meu passeio
sou cuidadoso alpinista
sei do mamilo a conquista.
A língua meu artefato
se atiça com muito tato
vai do ouvido ao seu regaço
e lúbrica banha o espaço.
O tempo se perde inteiro
num relógio sem ponteiros.
Já o disse certa vez
nas curvas da sensatez.
Os sons que saltam do corpo
úmidos de tanto rogo
se abafam num bafo quente
vapor de tesão fremente.
Há mistérios nas palavras
que nem a memória grava
são do instante a liberdade
que o vulgar vem sem as grades.
É quando desço ao regato
revelando no meu trato
o retrato e seu reflexo
toda a magia do sexo.
E o beijo mais escolhido
pousa nos pêlos tecidos
crespa canção guardiã
do milagre da manhã.
E ligeira se aligeira
a serpente mais rasteira
de língua malemolente
amaciando o presente.
Balada como/vida
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que muito
lume de simples lamparina
num raio de curto-circuito
impresso numa chuva fina
nem sempre de ventos fortuitos
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais comum
como essa bigorna batida
forjando a ferradura em U
essa letra de idas e vindas
pisadas num chão de sussurros
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que um vão
olho d’água em funda cacimba
lavas de um antigo vulcão
que abriga na sua barriga
o enigma dessa explosão
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que um fio
mais que um estuário de eventos
lavados nas águas de um rio
tecido na palha do feno
é mais que um novelo macio
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que um meio
e não tem fim essa medida
e cada um vive o rateio
uma dúvida dividida
numa dádiva sem receios
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que menos
menos até que uma ferida
dos muitos amigos serenos
vaidades vãs ressentidas
caídas no barro terreno
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que nada
um solto cavalo sem brida
uma égua fogosa adestrada
as queixas de um falso suicida
são ternas canções dessa estrada
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que sorte
na sua alegria bem-vinda
nas suas fraquezas de porte
não há amor que se maldiga
nem há paixão que se comporte
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que nada
um solto cavalo sem brida
uma égua fogosa adestrada
as queixas de um falso suicida
são ternas canções dessa estrada
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que um pífaro
um sopro de som desabrido
nos pés desse sonho tão ínfimo
uma imagem só dissolvida
na breve balada sem ritmo
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que engano
um trocar de pé na descida
um passo a mais sendo paisano
é bala de guerra perdida
nesse mapa cotidiano
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que acerto
inclusive o erro e a decaída
que são como frutos de enxertos
plantados nas curvas perdidas
colhidos no mesmo contexto
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais valia
lucros & perdas perdas - dor mais doída
na conta melhor que se avia
flor da ganância desmedida
tão do Homem nessa porfia
Vida pra que te quero vida?
Uma vida é só uma vida
só uma vida é vivida
melhor se for dividida
e tudo mais é só
e tudo mais é
e tudo mais
e tudo
e
e tudo mais é mais que muito
lume de simples lamparina
num raio de curto-circuito
impresso numa chuva fina
nem sempre de ventos fortuitos
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais comum
como essa bigorna batida
forjando a ferradura em U
essa letra de idas e vindas
pisadas num chão de sussurros
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que um vão
olho d’água em funda cacimba
lavas de um antigo vulcão
que abriga na sua barriga
o enigma dessa explosão
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que um fio
mais que um estuário de eventos
lavados nas águas de um rio
tecido na palha do feno
é mais que um novelo macio
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que um meio
e não tem fim essa medida
e cada um vive o rateio
uma dúvida dividida
numa dádiva sem receios
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que menos
menos até que uma ferida
dos muitos amigos serenos
vaidades vãs ressentidas
caídas no barro terreno
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que nada
um solto cavalo sem brida
uma égua fogosa adestrada
as queixas de um falso suicida
são ternas canções dessa estrada
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que sorte
na sua alegria bem-vinda
nas suas fraquezas de porte
não há amor que se maldiga
nem há paixão que se comporte
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que nada
um solto cavalo sem brida
uma égua fogosa adestrada
as queixas de um falso suicida
são ternas canções dessa estrada
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que um pífaro
um sopro de som desabrido
nos pés desse sonho tão ínfimo
uma imagem só dissolvida
na breve balada sem ritmo
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que engano
um trocar de pé na descida
um passo a mais sendo paisano
é bala de guerra perdida
nesse mapa cotidiano
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais que acerto
inclusive o erro e a decaída
que são como frutos de enxertos
plantados nas curvas perdidas
colhidos no mesmo contexto
Uma vida é só uma vida
e tudo mais é mais valia
lucros & perdas perdas - dor mais doída
na conta melhor que se avia
flor da ganância desmedida
tão do Homem nessa porfia
Vida pra que te quero vida?
Uma vida é só uma vida
só uma vida é vivida
melhor se for dividida
e tudo mais é só
e tudo mais é
e tudo mais
e tudo
e
Anúncio
É preciso urgente cortar os excedentes.
Nada de adiposidades.
Estamos em crise.
Os adjetivos que me perdoem,
os substantivos são mais esbeltos,
e a Nova Era recomenda que sejamos seletos.
Há uma pena de andorinha voando à toa.
Há um redemoinho que nos afunda a proa.
Há uma onda marejada que não se escoa.
É preciso pôr um bêbado no timão do barco.
Que saiba das marés pelo trago das estrelas,
que saiba afundar levantando um brinde,
e mesmo nos destroços saber-se príncipe
salvo do rescaldo para o cetro da palavra:
La parole est mort. Vive la parole!
Há uma paixão em cada esquina torta.
Há um resto de angústia celebrando a morta.
Há um boi no labirinto procurando a porta.
É preciso correr atrás da utopia que se fez distante,
para que ela volte a habitar os dias mais comuns,
e faça que o sonho se pareça ao sonho,
mesmo sob o manto pessimista da névoa,
afiando o sabre na pedra que restou da cachoeira.
Ah, nuvens vermelhas, derramai vossa chuva de fogo!
Há um canto entravado na garganta.
Há um sufoco que já não me espanta.
Há um espelho que já não me encanta.
É preciso fugir do tempo perdido.
O que ficou pra trás encantou-se com a serpente,
e todos os dias buscamos novos corredores:
aléias renovadas para as pegadas recentes.
Salvemos aqui a parelha dos pés que suporta a canga
nesse itinerário do agora recolhendo ontens.
Há um solitário na mesa de um bar.
Há um suicida na voragem do mar.
Há um reclamante do verbo amar.
É preciso, finalmente, se apaixonar todos os dias.
Experimentar o gesto no corpo da amada.
Imprimir no toque a tatuagem serena
para que fique perene quando for saudade:
A vida se amplia num flash de coisas pequeninas,
e o que ficar são ecos de melodia transitória.
Há um desejo que me faz cantor.
Há uma paixão saída da sua cor.
Há um amor na contramão da dor.
Por isso anuncio o canto do meu tempo.
Nada de adiposidades.
Estamos em crise.
Os adjetivos que me perdoem,
os substantivos são mais esbeltos,
e a Nova Era recomenda que sejamos seletos.
Há uma pena de andorinha voando à toa.
Há um redemoinho que nos afunda a proa.
Há uma onda marejada que não se escoa.
É preciso pôr um bêbado no timão do barco.
Que saiba das marés pelo trago das estrelas,
que saiba afundar levantando um brinde,
e mesmo nos destroços saber-se príncipe
salvo do rescaldo para o cetro da palavra:
La parole est mort. Vive la parole!
Há uma paixão em cada esquina torta.
Há um resto de angústia celebrando a morta.
Há um boi no labirinto procurando a porta.
É preciso correr atrás da utopia que se fez distante,
para que ela volte a habitar os dias mais comuns,
e faça que o sonho se pareça ao sonho,
mesmo sob o manto pessimista da névoa,
afiando o sabre na pedra que restou da cachoeira.
Ah, nuvens vermelhas, derramai vossa chuva de fogo!
Há um canto entravado na garganta.
Há um sufoco que já não me espanta.
Há um espelho que já não me encanta.
É preciso fugir do tempo perdido.
O que ficou pra trás encantou-se com a serpente,
e todos os dias buscamos novos corredores:
aléias renovadas para as pegadas recentes.
Salvemos aqui a parelha dos pés que suporta a canga
nesse itinerário do agora recolhendo ontens.
Há um solitário na mesa de um bar.
Há um suicida na voragem do mar.
Há um reclamante do verbo amar.
É preciso, finalmente, se apaixonar todos os dias.
Experimentar o gesto no corpo da amada.
Imprimir no toque a tatuagem serena
para que fique perene quando for saudade:
A vida se amplia num flash de coisas pequeninas,
e o que ficar são ecos de melodia transitória.
Há um desejo que me faz cantor.
Há uma paixão saída da sua cor.
Há um amor na contramão da dor.
Por isso anuncio o canto do meu tempo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)