Para meus filhos Aníbal,
Ricardo e Sacha
I
Quarenta anos já vivi
quarenta anos eu purguei
sem contar outros quarenta
dos poemas que tracei.
Quantos mais eu viverei?
Quarenta e poucas verdades
oitenta de muito amor
de poeta que não renega
a sina de fingidor.
Mas é bom que se pergunte:
– O que alimenta o poeta?
As mentiras e as verdades
conquistas e desamores
escaramuças boêmias
réstias de foice lunar
ou essa poeira de estrelas
que leva ao canto da boca?
II
Qual o legado ou herança
aos que chegarão depois?
Qual o filho amargará
pelas veredas de ofício
as linhas da minha dor?
Três varões de bela estirpe
por certo segredarão
os cantares mais sofridos
ouvidos da solidão
as cantigas mais que antigas
às fêmeas que tombarão.
Os três são da minha gesta
são três sementes que deixo.
Em qual... adubo serei?
Os três são da minha gesta
são três sementes que deixo.
Em qual... árvore serei?
Mas é bom clarificar:
são três sementes distintas
ligadas ao mesmo tronco
cada qual se circunscreve
ao seu rio particular.
III
Mas é bom que se esclareça:
Não deixo nada em espécie.
Deixo apenas as palavras
de fria tipologia
dos livros da minha lavra.
Além da minha guitarra
que viajou tantas canções
deixo os calos bulinosos
dos dez pássaros ariscos
acordes das minhas mãos.
Deixo também melodias
de cada paixão azul
minhas musas mais fremosas
que o vento se encarregou
de semear pelas nuvens.
E das minhas convicções
a ternura e a esperança
são a partilha mais viva
do repartir em comum.
No meu Poeminventário
a lição já foi descrita:
há que somar para o dia
o sol da democracia.
Mas no Brasil brasileiro
nunca é demais insistir
a redundância é uma prática
como um samba com pandeiro.
O que mais posso deixar?
As venturas de Bragança
os caminhos de Baeza
dos senhores da Biscaia
por que passamos por lá?
Ou estes versos do bispo
Bispo-poeta de Málaca
Dom João Ribeiro Gaio
que canta com ironia
a saga do clã dos Beça:
Geração é bem antiga
agora pouco lembrada
da honra muito amiga
mas a pobreza os obriga
de grandes tornarem-se em nada.
Mas é bom que eu agora afirme:
nunca me queixei ao bispo...
fui vassalo e menestrel
cantei em circo também
encilhador de cavalos
pelas várzeas cavalguei
astronauta de outros mundos
dos meus exílios forçados
e um dia até já fui rei
no asfalto onde só... eu sambei.
Quarenta anos já vivi
quarenta anos eu purguei
quantos mais eu viverei?
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