Eu me inscrevo escritura
cúmplice da fatura
e nessa escrita inscrito
escrevo o grito aflito.
Um solo só de fogo
nas águas do seu jogo
ar no sopro do vento
chão do quarto elemento.
Também escrevo o urro
não somente o sussurro
o dito da alegria
dita a caligrafia.
Escavo e escrevo o cravo
na rota dos pés cavos
presa da ferradura
em covas de funduras.
Escrever-me no escrito
sem o crivo mau dito
e bem dizer do mal
dito um bendito aval.
Sou dois nessa serpente
e mordo a cauda presente
penso no ser do sonho
corpo com que me assanho.
Essa placenta envolta
dá voltas muito soltas
enforcado de mim
chego no imo do fim.
E sou e nada sei
rei perdido na grei
escravo do conflito
eu lavro o meu escrito.
Palavra que me leva
leve ao vale das trevas
no passo da claridade
piso a luz da herdade.
E o verbo se inicia
grunhir de parceria
sou fera da parelha
no som que me assemelha.
Domado domador
mando e desmando a dor
sou fim desse começo
reinvento e recomeço.
De novo começar
precisa o sal do mar
jorro de muita água
choro de muita lágrima.
Maravilha se assina
alegria da campina
firmo a sina feliz
traço de claro giz.
No silêncio me assumo
surdo desse barulho
e só me sinto muito
pouco de tanto intuito.
Escrevo o crivo escrito
na escritura do rito
subscrito e escrevo
no risco mais primevo.
No tempo que inda tenho
pairo pensando e venho:
banho na mesma água
mágoas que o tempo lava.
Não levo a dor da culpa
nem pecado me avulta
e livro da centelha
o outro da parelha.
Só não livro da dor
quem não se deu no amor
não soube na medida
desmedir pela vida.
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